(Série) Benefícios do Jiu-Jitsu Brasileiro (BJJ) – Adolescentes (13-18)

O Jiu-Jitsu Brasileiro (BJJ) é a principal arte marcial de grappling (ou luta agarrada) praticada no Dojo da Topázio Alentejo, mas o que muitos não sabem é que seus impactos positivos que vão muito além da autodefesa.
Originado do Judô no início do século XX, o BJJ incorporou a filosofia e técnicas de Jigoro Kano (fundador do Judô) para criar um sistema essencialmente focado no combate de solo, sem perder as principais técnicas de projeção. Hoje, ambas as modalidades são conhecidas por desenvolver o corpo e a mente de forma holística (ou seja, completa e integrada), beneficiando praticantes de todas as idades em várias áreas da vida – da saúde física à mental e emocional, passando pela vida profissional, académica, social e para alguns até espiritual.

Diversos estudos científicos sustentam esses benefícios. Investigadores têm observado melhorias significativas na aptidão física (força, resistência cardiovascular e flexibilidade) de praticantes regulares de BJJ (Sports Exercise Science – The Sport Journal). No campo mental e emocional, há evidências de redução de stress, ansiedade, depressão e mesmo sintomas de PTSD (Perturbação de Stress Pós-Traumático) através desta arte marcial como relatado no artigo publicado pela “The Sport Journal“. O mesmo artigo mostra como o BJJ incentiva também a resiliência psicológica e oferecem um forte sentido de comunidade e integração social, ajudando a combater o isolamento, o que é muito importante inclusive no combate a vícios como apostas, jogos, drogas, álcool, etc… Além disso, praticantes relatam ganhos em autoestima, disciplina, motivação e energia diária, comprovando que as lições aprendidas no tatame se traduzem em melhorias no dia-a-dia.
Praticantes têm relatado benefícios mesmo a nível de caráter, ajudando a desenvolver humildade, respeito, cooperação e compaixão.

Nesta série de artigos, vamos explorar em detalhe os benefícios do BJJ – reforçados por dados do Judô, dada a origem comum e semelhanças – em diferentes faixas etárias, desde crianças até idosos. Cada etapa da vida colhe vantagens únicas, embora muitos benefícios se mantenham ao longo dos anos, adaptando-se às necessidades de cada praticante. Se já és um praticante, tenho a certeza de que este artigo pode te motivar ainda mais. Mas se ainda não experimentaste os inúmeros benefícios desta arte marcial, quem sabe este artigo não te incentive a experimentar uma aula experimental conosco 😉. No artigo de hoje vamos entender como o Brazillian Jiu-Jitsu (ou BJJ) pode beneficiar e muito o seu filho ou filha entre os 4 a 12 anos.

Adolescentes (13–18 anos)

A adolescência é uma fase de transformações intensas – físicas, emocionais e sociais – e o BJJ e o Judô podem funcionar como um porto seguro e ao mesmo tempo um laboratório para o desenvolvimento saudável. Fisicamente, os benefícios continuam a ser notórios. Nesta idade, a prática regular ajuda a canalizar a energia típica da adolescência para algo construtivo. Em vez de passarem horas inativos, os jovens no tatame estão a suar, a fortalecer músculos e a melhorar a capacidade cardiovascular. Os treinos vigorosos de grappling contam como atividade física moderada a intensa, alinhando-se com as recomendações da Organização Mundial de Saúde para esta faixa etária (Health Outcomes of Judo Training as an Organized Physical Activity for Children and Adolescents: A Literature Review) (Health Outcomes of Judo Training as an Organized Physical Activity for Children and Adolescents: A Literature Review). Além disso, contribuem para uma postura mais correta e melhor consciência do corpo – num período em que muitos crescem rapidamente e podem tornar-se desengonçados, o Jiu-Jitsu e o Judô ajudam-nos a “encaixar” na sua nova estatura com graça e agilidade.

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No plano mental, uma das maiores dádivas destas artes é proporcionar gestão do stress e das emoções num período cheio de pressões (exames, expectativas sociais, mudanças hormonais). Muitos adolescentes encontram no BJJ um escape para a ansiedade diária: durante a hora de treino, a mente foca-se nas técnicas e no momento presente, o que produz um efeito de mindfulness (atenção plena) e alívio de tensões. Estudos indicam que a exigência mental do Jiu-Jitsu – ter de pensar estrategicamente sob pressão – melhora a capacidade de atenção e o foco mesmo fora do tatame (IBJJF | International Brazilian Jiu-Jitsu Federation). Com efeito, praticantes regulares de BJJ apresentaram melhorias significativas nas funções cognitivas, incluindo atenção e acuidade mental, graças a esse “exercício” constante do cérebro durante os combates simulados (IBJJF | International Brazilian Jiu-Jitsu Federation). Para um adolescente, isso pode traduzir-se em melhor concentração nos estudos e tarefas.

Do ponto de vista emocional, o Jiu-Jitsu e o Judô oferecem lições valiosas numa fase em que os jovens estão a moldar a identidade e a autoestima. Um dos primeiros ensinamentos é a humildade: ao entrar no ginásio, o adolescente depressa descobre que haverá sempre alguém melhor – vai levar uns “tapinhas” (sinal de desistência) e perceber que não é invencível. Longe de ser algo negativo, esta experiência controlada do ego ensina-o a lidar com falhas e a manter os pés no chão, construindo uma confiança realista. Como disse um praticante, o BJJ traz “confiança através da humildade” (How has BJJ changed your life? | Sherdog Forums | UFC, MMA & Boxing Discussion) – isto é, ao aceitar que tem pontos fracos e trabalhá-los, o jovem torna-se mais confiante de forma saudável, sem arrogância. Essa confiança reflecte-se fora do tatame: vários estudos notam aumentos significativos de autoestima e autoeficácia em adolescentes que treinam artes marciais, comparativamente a pares sedentários ([From Mat to Mastery: Lifelong Skills Learned through Brazilian Jiu-Jitsu|European Journal of Sport Sciences](https://www.ej-sport.org/index.php/sport/article/view/189#:~:text=Jitsu%20,reported%20enhanced%20mental)) ([From Mat to Mastery: Lifelong Skills Learned through Brazilian Jiu-Jitsu|European Journal of Sport Sciences](https://www.ej-sport.org/index.php/sport/article/view/189#:~:text=Parents%20also%20reported%20substantial%20benefits,Although)).

Outra vantagem crucial nesta idade é a estrutura e disciplina que o treino impõe. Em vez de enveredar por caminhos destrutivos, muitos jovens encontram no BJJ/Judô uma rotina positiva. Há horários a cumprir, hierarquias de cinturões que exigem dedicação para progredir, metas claras (como aprender certo conjunto de técnicas ou competir num torneio) e um código de conduta a respeitar. Essa disciplina frequentemente transborda para a vida académica: pais relatam melhorias na organização do tempo e na responsabilidade dos filhos praticantes, que gerem melhor o equilíbrio entre estudos e treinos. De facto, num estudo recente não se observaram diferenças significativas nos ganhos em confiança, redução da ansiedade, compromisso e concentração entre jovens e adultos praticantes de BJJ – sugerindo que os adolescentes colhem praticamente os mesmos frutos psicológicos positivos que os adultos ([From Mat to Mastery: Lifelong Skills Learned through Brazilian Jiu-Jitsu|European Journal of Sport Sciences](https://www.ej-sport.org/index.php/sport/article/view/189#:~:text=When%20comparing%20adults%20and%20parents%2C,significant%20differences%20were%20noted%20in)) ([From Mat to Mastery: Lifelong Skills Learned through Brazilian Jiu-Jitsu|European Journal of Sport Sciences](https://www.ej-sport.org/index.php/sport/article/view/189#:~:text=improved%20confidence%2C%2087.5,agreed%20that%20BJJ%20enabled%20their)). O que muda é que, para muitos deles, o tatame torna-se também um **círculo social** importante. Ao treinarem, estão rodeados de outros jovens com um interesse comum, muitas vezes formando amizades fortes e laços de equipa. Isso pode ser particularmente benéfico para adolescentes tímidos ou com dificuldades de integração, dando-lhes um sentimento de pertença. Saber que têm um grupo de “colegas de kimono” em quem confiam aumenta a **autoestima social** e diminui a probabilidade de se isolarem.

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Por fim, convém destacar a dimensão de autodefesa e segurança pessoal. A adolescência pode expor os jovens a situações de bullying ou violência. Tanto o Judô quanto o BJJ ensinam técnicas eficazes de defesa pessoal sem recurso a violência excessiva (controlar um adversário no chão em vez de desferir socos, por exemplo). Essa capacidade de se defenderem traz tranquilidade não só aos jovens mas também aos pais, e paradoxalmente reduz conflitos: um adolescente confiante e consciente da própria força tende a evitar brigas, pois não sente necessidade de provar nada. Assim, nesta fase turbulenta, o Jiu-Jitsu e o Judô funcionam como um canal para energia física, um treino para a mente e um guião de princípios para a vida, ajudando a moldar jovens mais saudáveis, equilibrados e seguros de si.

Conclusão

Do tatame para a vida, os ensinamentos e benefícios do Jiu-Jitsu Brasileiro e do Judô manifestam-se de forma abrangente. Crianças ganham saúde, disciplina e valores; adolescentes encontram um canal para a energia e uma bússola para o caráter; jovens adultos aprimoram corpo e mente, levando resiliência e foco às suas carreiras e relações; adultos de meia-idade redescobrem vitalidade, equilibram o stress e cultivam hábitos salutares; idosos mantêm-se ativos, autónomos e integrados socialmente, colhendo talvez o fruto mais precioso – anos a mais de vida com qualidade.

Comprovados por investigações rigorosas e ilustrados pelos testemunhos apaixonados de quem pratica, os benefícios do BJJ e do Judô transcendem o dojo. Cada faixa etária usufrui de vantagens adaptadas às suas necessidades, mas há um fio condutor comum: a prática marcial promove um estilo de vida positivo, onde corpo e mente se desenvolvem em harmonia. Através do esforço físico, aprendem-se lições de perseverança; através do confronto controlado, cultivam-se paz de espírito e autocontrolo. A velha máxima “mens sana in corpore sano” ganha vida no tatame – um praticante de Jiu-Jitsu/Judô tende a ser simultaneamente mais apto fisicamente e mais equilibrado mentalmente (IBJJF | International Brazilian Jiu-Jitsu Federation) (IBJJF | International Brazilian Jiu-Jitsu Federation).

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É importante frisar que cada pessoa é diferente e os resultados podem variar. Também há desafios – lesões ocasionais, frustrações – mas mesmo estes ensinam prudência e superação. Com orientação adequada e respeito pelos limites individuais, os riscos diminuem e os retornos multiplicam-se. Seja a buscar uma atividade para o seu filho tímido, uma forma de se manter em forma aos 30, um escape ao sedentarismo dos 50 ou um estímulo cognitivo aos 70, o Jiu-Jitsu Brasileiro e o Judô oferecem um caminho: o “caminho suave” que nos leva a ser versões mais fortes, sábias e saudáveis de nós próprios. Quem o trilha, invariavelmente afirma – e a ciência corrobora – que os benefícios se fazem sentir em todas as áreas da vida, numa jornada de melhoria contínua que não conhece idades.


Referências (não citadas diretamente no texto):

  1. BJJTribes – “Looking at whether BJJ really DOES change your life or not”, discutindo relatos comuns de praticantes sobre mudanças de vida através do Jiu-Jitsu. (2021)
  2. Sherdog Forums – Tópico “How has BJJ changed your life?” com dezenas de depoimentos de praticantes (vários autores, 2014) sobre benefícios percebidos (ex.: abandono do tabaco, controlo da raiva, novas amizades, etc.).
  3. MiddleEasy – “The 10 Life Changing Benefits of Brazilian Jiu Jitsu”, artigo enumerando benefícios chave do BJJ (confiança, forma física, paciência, círculo social, etc.) de forma acessível, por Tomislav Zivanovic. (2020)
  4. Easton Training Center Blog – “How Martial Arts Change Lives”, relato pessoal de um praticante que superou ansiedade e comportamentos autodestrutivos através do BJJ, enfatizando melhorias em bem-estar e visão de si mesmo. (s.d.)
  5. Collura, G. L. (2018). “Brazilian Jiu Jitsu: A tool for veteran reassimilation.” Dissertação de Mestrado, University of South Florida. – Explora o BJJ como terapia para veteranos (PTSD, integração social).
  6. Sugden, J. T. (2021). “Jiu-jitsu and society: Male mental health on the mats.” Sociology of Sport Journal, 38(3), 218–230. – Estudo sobre motivação masculina no BJJ e impactos na saúde mental.
  7. Stout, J. R., et al. (2011). “Judo for Children and Adolescents: Benefits of Combat Sports.” Strength & Conditioning Journal, 33(6), 60–63.* – Artigo de revisão destacando benefícios físicos e psicossociais do Judô em jovens, incluindo melhorias de auto-disciplina e respeito.
  8. Gracie Castle Hill Academy – “Too old to roll? Can I start BJJ if I’m over 40?”, artigo motivacional mencionando Helio Gracie treinando até aos 95 anos e exemplos de iniciantes de BJJ na meia-idade. (2020)